Fazia algo de frio (uns 40 graus abaixo de zero, se bem me lembro) e éramos poucos. No máximo uns vinte, guardávamos a cidade do exército alemão, que se aproximara velozmente e agora nos isolara por completo.

Num determinado momento, acabou a comida. Mesmo os deliciosos ratinhos que caçávamos felizes se esgotaram. A situação piorava. Dois dias depois, acabaram as mulheres. A tensão aumentava, podia-se cortar o ar com uma faca de plástico, dessas distribuídas em vôos hoje em dia, uma bela duma porcaria – tente destrinchar um bife para você ver só. Mas isso não vem ao caso - não tergiversemos. No terceiro dia, tudo ficou insuportável. Acabou a vodka. O caos se instalou em nossas fileiras. Os homens começaram a ficar sóbrios, e a se dar conta de que todos iríamos morrer. Era necessária uma atitude urgente. Acima de tudo, era necessário um herói. Mas heróis são bem raros nos Urais. Eles habitam Gothan City, Metrópolis e cidades do tipo. Nunca vi um em Kurk, Smolemsk, Ulianovsky ou Novgbrod. Mesmo em Moscou acho que eram raros - meu primo uma vez me disse ter visto o Aquaman no rio Volga, perto de Volgograd - tenho quase certeza de que estava gozando com minha cara. Mas, novamente, não tergiversemos. Era preciso criar um herói ali mesmo, em Leningrado. Alguém com coragem para romper o cerco, ultrapassar as linhas alemãs, correr para a fazenda mais próxima, colher o trigo, a cevada, o milho, misturá-los ao Ovomaltine (o grande segredo desta receita caseira, anote aí) e destilar a mais pura bebida deste mundo, o néctar das deusas (muito melhor que o dos deuses, diga-se de passagem). Previsivelmente, ninguém queria a incumbência. "Estou com a unha encravada", disse Romarov; "Tenho hora no dentista", ponderou Kaskharov; “Marquei para hoje a revisão de 20000 km do meu Lada”, retrucou Yalovchenco. Covardes! Olhei bem para suas caras nojentas, e falei o mais alto que pude: “Seus cães vagabundos medrosos! Não honram a mãe Rússia! Não honram vossas botas, as calças que vestem! Pois saibam que eu honro - eu vou!" Talvez tenha sido a adrenalina que percorreu o meu corpo, mas o fato é que, no segundo seguinte, eu já estava sóbrio, e tremendamente arrependido por ter dito tamanha bobagem. Mas não podia mais voltar atrás. Arrumei todos os meus trastes, peguei meu velho fuzil e me dirigi ao ponto mais vulnerável da linha de cerco.

Só pedia que tudo fosse rápido - uns vinte tiros ao mesmo tempo, para pelo menos eu morrer logo. Quando me preparava para correr em direção ao inimigo, um vulto chamou meu nome. Surpreso, vi sair das sombras a doce Svetlana, que tantos bons serviços ao exército em geral (e a mim em particular) havia prestado. Ela então falou: “Venha, Casmurro, vamos para o abrigo”, ao que eu retruquei: “Mas que raio de abrigo é esse ?” “Ora, o abrigo subterrâneo para onde foram todos, para esperar que o inverno acabe com o exército alemão. Tentamos avisar você e seus amigos, mas são umas bestas bêbadas, não nos ouviram, então deixamos para lá”. Caminhamos uns 5 minutos até a entrada secreta, com iluminação discreta (e de muito bom gosto, diga-se de passagem - tergiversamos novamente - isso também não vem ao caso).

Lá dentro, havia música.

Lá dentro, havia também mulheres e danças.

Entretanto, lá dentro havia ainda um grande problema: o abrigo era um antigo depósito da Vodkaliovsk, a fábrica estatal de Vodka da cidade, no qual eles guardavam somente as melhores safras, para envelhecer. E estava abarrotado de barris, os quais ocupavam espaço que poderia salvar muito mais gente – precisavam ser consumidos urgentemente.

Só posso lhes assegurar que, embora não me recorde bem dos detalhes, nos meses seguintes eu pessoalmente garanti vaga para milhares de pessoas e me tornei, merecidamente, um herói.

Não balança muito não, que a terra tá girando forte aqui em cima!